19.1.11

Ómega-3 e Ómega-9 protegem contra obesidade


Uma pesquisa realizada na Unicamp revelou que os ácidos gordos insaturados ómega-3 e ómega-9 não apenas interrompem, mas também revertem o processo inflamatório causado por dietas ricas em gorduras saturadas numa região do cérebro chamada hipotálamo.

O hipotálamo é responsável pelo controle da fome e do gasto energético. O processo inflamatório ocasiona a perda deste controle neural e abre espaço para o desenvolvimento da obesidade.

Os ácidos gordos insaturados ómega-3 e ómega-9 estão presentes, respectivamente, na semente de linhaça e no azeite.

O estudo revelou ainda, em descrição inédita na literatura, que o ómega-9, ao contrário do que se sabia até o momento, é mais potente em reverter essas condições do que o ómega-3, reconhecido como um clássico anti-inflamatório.

A pesquisa, que acaba de ganhar o primeiro lugar no Prémio Henri Nestlé, certame nacional de grande impacto na área da nutrição, foi realizada por Dennys Esper Cintra, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp em Limeira, e por Lício Velloso, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

Gorduras saturadas
Estudos recentes mostram que dietas ricas em gorduras saturadas – como as presentes nas carnes bovina e suína, e nos seus derivados como leite, queijos e manteiga – lesionam o hipotálamo ao darem início a um tipo de inflamação local que acaba influenciando o seu funcionamento.

Esse processo inflamatório, quando prolongado, pode causar a morte de neurónios e, consequentemente, a perda deste controlo neural. Uma vez inflamado, o hipotálamo perde parte de suas funções, ao ter reduzida a sua capacidade de “percepção” entre o momento de sinalizar para o organismo o armazenamento ou a queima de energia.

Pesquisas anteriores do grupo haviam revelado que tal inflamação é desencadeada por um receptor do sistema imune denominado Toll-Like Receptor 4 (TLR4). Este receptor é capaz de reconhecer uma substância presente na parede celular de bactérias, e, quando activado, produz citocinas que causam inflamação.

Demonstrou-se que essa substância presente na parede de bactérias também está presente nos alimentos ricos em gorduras saturadas. Quando consumidas em larga escala, como é o caso das dietas ocidentais, essas grandes quantidades de gordura são capazes de sensibilizar esses receptores, simulando uma infecção.

“Isso ocorre por todo o organismo, mas quando essas gorduras encontram esses receptores no hipotálamo, o estrago pode ser maior, pois é ali que se encontra a caixa-preta do nosso balanço energético” diz o pesquisador. Logo, algumas pessoas, quando expostas a dietas hipercalóricas, perdem gradativamente o controle da fome e passam a consumir mais calorias do que gastam, tornando-se obesas com o decorrer do tempo.

Ómega-3 e Ómega-9
Os ensaios nutrigenómicos realizados por Cintra em modelos experimentais compararam a ação dos ácidos gordos insaturados ómega-3 e ómega-9 no hipotálamo de camundongos obesos e diabéticos e demonstrou que essas substâncias são capazes não apenas de atenuar a inflamação e restabelecer o processo de sinalização celular que controla o apetite como também de interromper os sinais de morte celular que vinham se instaurando.

Durante o tratamento com os ómegas, a sinalização da insulina e leptina (hormónios que indicam ao cérebro que há a presença de nutrientes e que está na hora de parar de comer) perdida em animais obesos e diabéticos foi restabelecida. Houve restauração de todo o perfil metabólico dos animais, culminando em perda de peso.

A pesquisa mostrou, no entanto, que para que os resultados sejam efetivamente alcançados é preciso uma ingestão contínua desses nutrientes, somada à descontinuidade da ingestão elevada de alimentos ricos em gordura saturada, ou seja, é preciso que haja uma reeducação alimentar, pois, uma vez interrompido o tratamento, os neurónios voltam a sofrer o processo de apoptose (morte celular).

Hipotálamo
No estudo, inicialmente, induziu-se a obesidade e diabetes nos animais, por meio da ingestão de uma dieta altamente calórica, rica em gorduras saturadas, bastante semelhante à consumida atualmente por populações ocidentais.

Numa segunda etapa, quando do início do tratamento, os animais foram distribuídos em grupos que receberam dietas acrescidas de ómega-3 ou ómega-9, em concentrações crescentes.

É sabido que a simples redução no consumo de gorduras saturadas já é o suficiente para a melhora no perfil metabólico em diversas espécies, inclusive em humanos.

Contudo, quando tais ácidos são ainda agregados à alimentação, os processos negativos gerados no hipotálamo pelo consumo crónico da gordura saturada melhoraram de forma exuberante. Houve recuperação do comportamento alimentar adequado, devido principalmente ao aumento na expressão de proteínas anti-inflamatórias e antiapoptóticas, além da redução significativa na expressão de marcadores pró-inflamatórios e pró-apoptóticos no hipotálamo dos camundongos.

Para confirmar a acção específica dos ácidos gordos ómega-3 e 9, os pesquisadores infundiram as substâncias directamente no hipotálamo de animais obesos, e observaram redução imediata no consumo de alimentos. Após uma semana de infusão directa no hipotálamo, os animais já tinham perdido mais de 10% do seu peso corporal.

Gasto energético
Somado a estes factores, ambos os estudos demonstraram que a perda de peso não se deveu apenas à recuperação do controle nervoso da fome, mas também porque tais substâncias aumentaram o gasto energético dos animais.

Quando infundido directamente no hipotálamo, ou mesmo quando consumidos por via oral, ambos, ómega 3 e 9, aumentam no tecido adiposo marrom a expressão de uma proteína chamada UCP-1, que é responsável pelo aumento do gasto energético. Com isso, a actividade das proteínas da via da insulina e da leptina foi restaurada. Os animais tornaram-se muito mais tolerantes à glicose e também mais sensíveis às acções da insulina, antes prejudicada pela obesidade.

Outro facto surpreendente foi demonstrado nesse estudo. Como dito anteriormente, os ómegas foram suplementados nas dietas em várias concentrações. A resposta mais interessante foi demonstrada nos grupos que receberam as menores concentrações na dieta, tanto de ómega-3 quanto de ómega-9. Embora os animais diabéticos não tenham deixado de ser diabéticos, a glicemia foi reduzida de forma expressiva e tornou-se controlável através apenas da alimentação nesses grupos”, revelou Cintra.

O impacto da substituição dos ácidos graxos na variação do peso corporal foi dependente da composição, mas não do tipo de ácido graxo. “Observamos que quando os animais consumiam esses ácidos graxos, ou quando aplicávamos diretamente no hipotálamo, a inflamação era finalizada. Os sinais de insulina e leptina enviados pela periferia chegavam até o hipotálamo e cumpriam a obrigação deles informando ao organismo que já havia nutrientes em quantidade suficientes, e que a fome deveria desaparecer”, explicou Cintra.

As concentrações testadas nas dietas correspondentes aos melhores resultados são quantidades passíveis de consumo no dia a dia, por meio de um acréscimo natural desses alimentos nas nossas refeições diárias, sem a necessidade de suplementos alimentares. Alimentos como semente de linhaça marrom, óleo de soja, sardinha e colza apresentam custos razoáveis e também excelentes fontes de ômega-3. Da mesma forma, o azeite , óleo de soja, abacate e amendoim são fontes saudáveis de ómega-9.

Criação de novos neurónios
Além de mostrar que os ácidos gordos ómega-3 e ómega-9 são capazes de interromper os sinais de morte celular, inibir a inflamação e restabelecer a sinalização celular das vias da leptina e da insulina, o trabalho trouxe evidências de que esses ácidos podem desencadear também um estímulo à génese de novos neurónios, num processo chamado de neurogénese.

A próxima etapa será investigar a possibilidade dessa síntese de novos neurónios, e verificar se tais ácidos gordos possuem a capacidade de exercer plasticidade sobre os neurónios afectados de indivíduos obesos, revertendo assim o processo de morte instaurado pelos ácidos gordos saturados.

É preciso descobrir se essa plasticidade ocorre no local onde os neurónios foram mortos pelo excesso de gordura saturada. Ainda não sabemos até que ponto, e nem por que razão, mas o ómega-3 é capaz de estimular a multiplicação de neurónios.

"O estudo indicou que o ómega-3 pode ter sido o responsável pela regeneração daqueles neurónios que já tinham morrido naquela região do hipotálamo. O próximo passo será descobrir se o ómega-3 é mesmo capaz de restabelecer os neurónios controladores da fome, e assim devolver ao indivíduo a capacidade perdida de controlar asua fome após ele ter-se tornado obeso", concluiu Cintra.

Morte dos neurónios
Isto torna o assunto numa questão ainda mais delicada: como a morte dos neurónios pode ser irreversível – os estudos na área ainda são muito incipientes – a possibilidade de o vício ou a compulsão por comidas gordurosas e altamente calóricas acontecer pode ser ainda mais grave.

De acordo com Cintra, é preciso que cada vez mais políticas públicas de prevenção à obesidade sejam implantadas, e que haja todo um esforço de reeducação alimentar entre a população, desde a infância.

“Uma vez que a pessoa se torna obesa, fica difícil reverter o processo de obesidade, ou, pelo menos, de devolvê-la ao controle da fome. Mesmo com o enorme avanço da ciência, esta ainda se encontra de mãos atadas em relação à obesidade. Ainda não temos nenhuma saída satisfatória para a doença, por isso é tão importante a prevenção. O indivíduo não se pode tornar obeso, porque a partir desse momento ele pode entrar num caminho sem regresso”, afirma Cintra.

Por esta razão, a melhor saída continua a ser, de acordo com cientistas e especialistas, investir em programas de conscientização, reeducação alimentar, e de estímulos às práticas de actividades físicas, para assim, tentar evitar que a obesidade atinja um patamar irreversível.
Fonte:funiber